Manifesto

Atenção: este é um canal preocupado com o nosso atual momento, com a existência de milhares de pessoas.


Nada sobre nós sem nós?
Mas quem exatamente somos nós?


Quando falamos “nós”, precisamos primeiro entender o tamanho desse “nós”.
Nós somos muitos. Somos muitos segmentos, muitas histórias, muitas lutas, muitas formas de existir dentro da imensa diversidade humana.
Somos pessoas com deficiência, mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, trabalhadores, crianças, jovens, idosos, famílias em suas diferentes formas. Somos gente.


E, se queremos falar em consciência, direitos e inclusão, esse nosso “nós” precisa ter, antes de qualquer coisa, amorosidade. Não é possível pensar que estamos defendendo a própria dignidade e, ao mesmo tempo, apoiar discursos de ódio contra outras pessoas. Não é plausível pedir respeito e aceitar discursos contra as mulheres. Não é coerente lutar por direitos e apoiar a retirada de direitos trabalhistas. Não é aceitável normalizar racismo, violência, preconceito, homofobia ou capacitismo. Também não faz sentido fazer parte de um grupo historicamente beneficiado por políticas públicas e, ao mesmo tempo, defender o desmonte justamente das políticas que garantem dignidade às pessoas que mais precisam. Esse “nós” não pode ser um “nós” masoquista. Não pode ser um “nós” que escolhe o próprio sofrimento. Que pede direitos com uma mão e, com a outra, ajuda a destruir os direitos dos outros e os seus próprios direitos. Que exige inclusão para si enquanto fecha a porta para quem também está lutando para existir. E não podemos cometer o erro de imaginar que o chicote vai atingir apenas o outro. O chicote também irá nos chicotear.


A violência que naturalizamos também vai nos encontrar. A bala perdida não pergunta se somos pessoas com deficiência. O preço da comida também pesa no nosso bolso. A fila do SUS também é a nossa fila. O desemprego também entra na nossa casa. A precarização do trabalho também nos alcança.
Quando políticas sociais são enfraquecidas, nós também sentimos.
O Benefício de Prestação Continuada também é nosso. As cotas também são nossas. O SUS também é nosso. A escola e a universidade públicas também são nossas. A assistência social também é nossa. A acessibilidade, a habilitação, a reabilitação e as políticas de inclusão também são nossas.
E, quando políticas destinadas às famílias de baixa renda, à educação e à permanência dos estudantes são desmontadas, jovens com deficiência e suas famílias também são atingidos.


Não existe uma redoma protegendo as pessoas com deficiência do país em que vivemos. E talvez sejamos o grupo mais vulnerável, os que nem são atacados nas mídias, pois o interesse em extinguir nossa existência seja tão grande que nem querem falar.


Também pagaremos mais caro pela comida.
Também esperaremos mais tempo na fila do SUS.
Também sofreremos com o desemprego.
Também podemos perder oportunidades de estudar. Lembre do ministro que falou: pessoa com deficiência atrapalha.
Também podemos assistir às cotas serem atacadas.
Também podemos perder políticas sociais das quais pessoas com deficiência e suas famílias dependem para viver com um mínimo de dignidade.


E existe algo ainda mais grave.


Quando uma sociedade começa a decidir quais vidas merecem proteção, quais pessoas merecem direitos e quais existências podem ser abandonadas, nós, pessoas com deficiência, sabemos muito bem que nunca estivemos longe dessa linha de tiro.

Por isso, nosso “nós” não pode ser masoquista.
Não podemos entregar o chicote e imaginar que ele jamais encontrará as nossas costas.


Não podemos ajudar a desmontar a ponte e acreditar que, quando chegar a nossa vez de atravessar, ela continuará lá.
Defender direitos humanos, políticas públicas, democracia e justiça social não é fazer caridade com os outros.


É também defender a nossa própria existência.
Quando uma mulher perde direitos, isso nos diz respeito.
Quando uma pessoa negra sofre racismo, isso nos diz respeito.
Quando uma pessoa LGBTQIA+ precisa lutar pelo simples direito de amar e existir, isso nos diz respeito.


Quando um trabalhador perde direitos, isso nos diz respeito.
Quando um indígena precisa lutar para defender sua terra e sua existência, isso nos diz respeito.


Quando uma família não consegue colocar comida na mesa, isso nos diz respeito.
Porque também somos mulheres.
Também somos negros.
Também somos indígenas.
Também somos LGBTQIA+.
Também somos trabalhadores.
Também somos pobres.
Também somos crianças, jovens e idosos.
Pessoa com deficiência não é uma existência separada do restante da diversidade humana.
Nossas lutas se atravessam.
Nós defendemos o amor.
Nós precisamos defender a liberdade.


Precisamos defender a equidade, a justiça social, a democracia, os direitos humanos e a dignidade para todos, justamente porque queremos uma sociedade em que nós também sejamos respeitados e incluídos.
E talvez seja justamente aí que esteja a pergunta mais incômoda:
Que direito temos de exigir uma sociedade que nos acolha se nós também não acolhermos os outros segmentos?
Nenhuma conquista está definitivamente garantida.
Direitos podem avançar.
Mas direitos também podem retroceder.
E, quando permitimos que a dignidade de alguém seja colocada em negociação, podemos ter certeza de que amanhã negociarão também a nossa.
Por isso, quando gritarmos “Nada sobre nós sem nós”, precisamos compreender profundamente quem cabe nesse “nós”.
Porque, se o nosso “nós” só serve quando o direito ameaçado é o nosso, talvez ainda não tenhamos entendido o verdadeiro significado dessa palavra.


Nosso “nós” precisa ser grande.
Precisa ser diverso.
Precisa ser solidário.
Precisa ter consciência de que ninguém se emancipa construindo a opressão do outro.


Nada sobre nós sem nós.

Mas que ninguém se engane:
Esse chicote que está voltando está com muita vontade de tocar com força em nós.

Divergência política
é uma coisa.
Incompatibilidade
de valores é outra.

De um lado
AMOR
PAZ
RESPEITO
POLÍTICAS PÚBLICAS
DIREITOS HUMANOS
DIVERSIDADE
POVOS INDÍGENAS
ANTIRRACISMO
ANTICAPACITISMO
TODAS AS FAMÍLIAS
EDUCAÇÃO
IGUALDADE

JUSTIÇA SOCIAL

Do outro lado

ARMAS
CHICOTE
MAIS HORAS
TRABALHADAS

MENOS DIREITOS
TRABALHISTAS

PRECONCEITO
DISCRIMINAÇÃO
RACISMO

HOMOFOBIA

CAPACITISMO

INTOLERÂNCIA

Paulo Freire
CIÊNCIA
CULTURA
DEMOCRACIA

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